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27 de fev. de 2012

Anorexia Nervosa

INTRODUÇÃO
Antigamente, um pouco de gordura no corpo era sinal de saúde. Aí veio a medicina dizendo que não há vantagem nenhuma em acumular tecido adiposo, pelo contrário, que todos devemos ser magros.
Ao lado dessa recomendação médica, a pressão social do padrão de beleza que se baseia em modelos bonitas e absolutamente magras, sem um grama de gordura no corpo, oprimiu a vida de muita gente. Hoje, a quantidade de pessoas que lutam para perder peso, fazem dietas e tomam remédios é enorme. Essa preocupação exagerada pode provocar um distúrbio psiquiátrico grave, cada vez mais freqüente tanto em pessoas de baixa renda quanto em pessoas que tem alguma influência na sociedade, que é a distorção da auto-imagem. A pessoa se olha no espelho e vê uma figura obesa que não corresponde ao que realmente é. Não nota a cratera abaixo da sua caixa torácica coberta pela própria pele e nem os ossos proeminentes. 
Iludida por essa falsa imagem, imagina-se com excesso de peso e diminui obsessivamente a ingestão até que, num dado momento, não consegue comer mais. Como conseqüência, pode desenvolver problemas graves de saúde que chegam, às vezes, a ser fatais.           
O nome dessa doença é anorexia nervosa, o tema do trabalho que será abordado. Essa patologia manifesta-se especialmente nas mulheres, embora sua incidência esteja aumentando também nos homens. Etimologicamente, o termo anorexia significa falta de fome. Portanto, trata-se de um termo mal-empregado para essa patologia, pois ela não é nervosa e nem se determina pela falta de fome e sim pelo controle obsessivo da alimentação. 
Sabe-se também que existem profissões como modelos, aeromoças e ginastas que se destacam pela perfeição da forma física, e para tanto exercem um nível de exigência muito grande. Nesses casos é que são encontradas as maiores incidências da patologia. 
Nesse trabalho o tema será considerado como um todo, já que existem dois tipos de anorexia que serão superficialmente tratados durante o trabalho, portanto, grande parte do mesmo tratará a doença de uma forma mais genérica.

1 ANOREXIA NERVOSA: PERDA DO AUTOCONTROLE OU OBSESSÃO?           
A anorexia nervosa é uma doença resultante de uma preocupação obsessiva e exagerada com o próprio corpo. Um caso típico é de uma menina que aparece na frente do espelho e se a garota mais gorda do universo, sendo que ela pode ser a Miss Brasil.           
Teoricamente a anorexia nervosa pode atingir as pessoas oriundas de todas as camadas sociais, de todas as raças, de todos os graus de escolaridade e de ambos os sexos. Mas, em geral,  ocorrem com mais freqüência na classe média e média-alta e nas mulheres, principalmente com idades entre os 13 e os 30 anos. Nos homens a doença afeta de 5 a 10% dos casos. 
A nomenclatura dada à doença corresponde à falta de apetite, como a maioria das pessoas supõe. Porém, a palavra em si é errada, pois a falta de apetite aparece predominantemente a longo prazo, quando a paciente já rejeitou tanta comida e o organismo acostumou-se à pouca energia, causando náuseas ao ver ou ingerir os alimentos, e aí sim. Há um perda significativa do apetite. Nessa fase já não há mais condições de associar comida ao prazer, mas como um remédio que precisa ser tomado de qualquer jeito. Na verdade, o início é um sofrimento muito grande, pois elas estão lutando contra a resistência do próprio organismo, contra a fome, e por um pouco que não, literalmente brigam contra a fome, tentando envolver-se em inúmeras atividades para se distraírem na hora da refeição. 
Os sintomas mais visíveis são: pele seca, intolerância ao frio, queda de cabelo, olhos fundos, isolamento social, a perda de peso é vista como uma conquista e o ganho do mesmo é considerado um fracasso, irritabilidade, excesso de exercícios (para elas, quatro horas de exercícios diários é o mínimo), crises de choro e acham que tratamento é totalmente desnecessário. 
Infelizmente, não há um medicamento específico para anorexia nervosa, mas os antidepressivos são usados habitualmente porque essas moças costumam apresentar também sintomas de depressão e muitas são tomadas por pensamentos obsessivos, tais como, por exemplo, arrumar as roupas ou contar compulsivamente o número de calorias dos alimentos ou, ainda, a somar os algarismos das placas dos carros que encontram na rua.
1.1  HISTÓRICO
Desde o século XIII, encontramos em grande abundância de descrições de mulheres que se auto-impunham jejum como uma forma de se aproximar espiritualmente de Deus; eram as chamadas "santas anoréxicas". O quadro era acompanhado de perfeccionismo, auto-insuficiência, rigidez no comportamento e insatisfação consigo própria, tal qual as anoréxicas hoje, a única diferença é que as mesmas hoje têm uma preocupação excessiva com o peso e a auto-imagem, enquanto que as outras não davam importância à massa corporal ou ao espelho, elas só valorizavam aquilo que achassem que as fariam estar mais próximas de Deus. 
Um dos casos mais conhecidos é o de Catarina Benincasa, mais tarde Santa Catarina de Siena. Alimentava-se de pão e alguns vegetais, autoflagelava-se, e eventualmente provocava vômitos com ingestão de plantas. Na vida dessas “santas” como Catarina de Siena, eram comuns esses jejuns pois acreditava-se (e ainda hoje acredita-se) que esses as levava a afastarem-se dos prazeres carnais e as faziam alcançar uma elevação espiritual. 
No ano de 1694, Richard Morton é autor do primeiro relato médico de anorexia nervosa, descrevendo o tratamento de uma jovem mulher com recusa em alimentar-se e ausência de ciclos menstruais, que rejeitou qualquer ajuda oferecida e morreu de inanição.O autor mostra-se profundamente intrigado pela indiferença que a paciente demonstrava em relação ao seu estado crítico e pela preservação de suas faculdades mentais básicas. 
Na segunda metade do século XIX a doença é delineada a partir dos relatos do francês Charles Laségue (1873) que descreve a anorexie histérique. Apesar de ser um psiquiatra com concepções sobre transtornos mentais, Lasége propõe uma forma de tratamento que leva em conta a relação da paciente, seus sintomas, e a família, e ainda deixa de lado o autoritarismo médico para ir conquistando a confiança de suas pacientes. Essa foi a origem dos tratamentos atuais.           
No ano seguinte, em 1874, William Gull descreve três meninas com quadro anoréxico restritivo. Verificou que o fenômeno geralmente não ocorre em homens e que o anoréxico é a garota adolescente. William não conseguiu atinar com qualquer perturbação de origem orgânica responsável pela situação. Concluiu tratar-se por uma “perversão do ego, um estado mental mórbido”. 
Em 1903, Janet relata o caso de Nadia, uma moça de 22 anos de idade, que manifestava vergonha e repulsa ao seu corpo com constante desejo de emagrecer, quadro que denominou de anorexie mental. 
1.2 EPIDEMIOLOGIA 
A proporção de indivíduos com anorexia é de 1% e desses 90 a 95% são mulheres. Os casos mais freqüentes são em mulheres, em 45% dos casos após uma dieta de emagrecimento, e 40 % em pessoas cuja profissão exige magreza como modelos e bailarinas.
Essas duas últimas profissões são altamente perigosas. As modelos, logicamente, ganham em disparada, seguidas das bailarinas, mas logo depois as ginastas, e por incrível que pareça, os jóqueis. Os jóqueis também são fortes candidatos porque a massa corporal deles não pode ser muito significativa para que o cavalo no qual estaria montado possa ter mais velocidade. Portanto, 100 gramas de diferença no peso pode representar uma perda de velocidade quase imperceptível, porém decisiva, do cavalo. 
1.2.1 Causas           
As causas da anorexia nervosa são divididas em três fatores: fatores biológicos, fatores psicológicos e fatores socioculturais. 
1.2.1.1 Fatores biológicos 
Incluem as alterações hormonais que ocorrem durante a puberdade onde o pré-adolescente está entrando na adolescência, que é a fase de uma auto-identificação com os colegas com a turma co a roda de amigos, e tenta fazer de tudo para tentar
encaixar-se num grupo de amigos. Aí pode entrar e cena a anorexia, pois o pré-adolescente acha que se tiver um corpo atraente vai se dar bem com os indivíduos do sexo oposto, chamará atenção dos colegas de classe e das pessoas que as vêem, e será considerado um modelo ou padrão das pessoas ao seu redor.
No mesmo fator também incluem pessoas que tem algum parentesco com um histórico que consta um distúrbio alimentar, por exemplo uma  mãe anoréxica, tem sérias chances de adquirir o mesmo ou outro distúrbio alimentar, pois por mais que a pessoa tenha se curado, ela ainda tem seqüelas, digamos assim, mentais, que são conduzidas a diante. Houve um caso de uma mãe ex-bulímica, que chegava a comer 3 quilos de comida numa só refeição, e depois vomitava ou tomava grandes doses de remédios laxativos. Os estranhos hábitos alimentares da mãe influenciaram a filha, que durante a puberdade, desenvolveu anorexia nervosa, pelo fato da mãe pesá-la quase que britanicamente e fazer comentários absurdos tais como:
Eu sei que você quer emagrecer, mas não consegue... você só se sentirá feliz quando sentir cada osso separado, quando a balança baixar de verdade. 
1.2.1.2 Fatores psicológicos
Muitas anoréxicas sofrem pertencem a famílias rígidas e fechadas sobre elas próprias e geralmente têm um relacionamento quase doentio com as mesmas. Sendo assim, não há diálogo entre eles e a falta informação, dependendo se o poder aquisitivo
da família for baixo e eles não têm dinheiro para dar formação escolar ao filho, pode ser um grande aliado de crianças e adolescentes terem idéias errôneas sobre o emagrecimento ou falta de peso.
Em uma clínica constatou-se que muitos jovens tinham a nítida impressão de que obesidade e gravidez eram a mesma coisa. Bobagem? O fato de serem a mesma coisa, sim, é um absurdo, mas a questão de que os jovens compararam a obesidade com gravidez, não. Vejamos o que disse uma dessas jovens:                       
Tenho medo de comer porque assim posso ficar gorda e ter um bebê.  
Esse é um caso em que uma moça contraiu anorexia depois que a amiga dela ficou grávida. A moça anoréxica na certa não sabia que a gravidez se resultava do contato sexual. 
E um outro caso, ainda mais ridículo, foi a comparação de um rapaz na mesma clínica, que chegou a comparar a concepção, o processo de gravidez e o parto ao processo de ingestão de alimentos e sua digestão:       
É algo que acontece dentro do corpo, sofre aí um processo e depois sai para fora. 
Esses são apenas alguns exemplos que foram resultantes da má informação fornecida aos adolescentes, não se sabe se foi por falta de escolaridade, ou por má informação dos pais ou ainda de “lições” dadas de pessoa para pessoa que tinham idéias errôneas e foram passando para outras pessoas quantas acreditassem¹. 
¹passando para outras pessoas quantas acreditassem: nessa frase não entende-se de que seja algum indivíduo maldoso que queira passar uma informação errada propositalmente. Muito pelo contrário, ela tenta ajudar a outra pessoa com algum conhecimento que já possuía ou com alguma observação que fez, com a intenção de ajudá-la, e essa, por sua vez, fará o mesmo, se ninguém lhe provar o contrário.
1.2.1.3 Fatores socioculturais           
Conforme dados levantados, foi provado que nas mulheres do ocidente a anorexia nervosa tem mais prevalência, especialmente aquelas que tem poder aquisitivo maior e que têm uma certa influência na mídia e no meio social, especialmente as mais jovens.           
A pressão cultural para emagrecer é considerada um elemento fundamental da causa dos transtornos alimentares, que interage com fatores biológicos, psicológicos e familiares para gerar a preocupação excessiva com o corpo e o pavor doentio de engordar, característicos da anorexia nervosa. A influência dos aspectos socioculturais é marcante.           
Nas sociedades afluentes, ao mesmo tempo em que observamos uma oferta abundante de alimentos de alto teor calórico e de rápido consumo, e a vida cotidiana se torna cada vez mais sedentária, as modelos e atrizes de sucesso, representantes dos padrões ideais de beleza feminina, são extremamente magras e muitas vezes apresentam um corpo de pré- adolescente, com formas pouco definidas. 
Assim, as sociedades ocidentais contemporâneas vivem atualmente sob o ideal da magreza, extrema ou não, e da boa forma física. Este protótipo se impõe principalmente para as mulheres, nas quais a aparência física representa uma importante medida de valor pessoal.
O conceito mais influente é o da moda, que determina a magreza absoluta como símbolo de beleza e elegância. O ideal de beleza que a sociedade e os meios de comunicação impõem está associado à magreza absoluta.
1.2.2  Características clínicas 
Existem dois tipos de anorexia: o tipo restritivo e o tipo purgativo. O tipo restritivo é mais raro, porém sua cura é mais sofrida e complicada. A pessoa que sofre de desse tipo de anorexia  vai diminuindo sua comida até chegar ao mínimo ou cortar tudo do seu cardápio. A pessoa vai criando um mundo onde só entram alguns tipos de alimentos que ela mesma define, comida que não seja desse cardápio criado por ela é visto como veneno por quem está com anorexia. O tipo purgativo também é conhecido como bulimia, caracterizada pelo fato da pessoa comer compulsivamente , mas depois, ela se arrepende e tenta se livrar do que comeu. Ao ouvir bulimia é comum acharem que se trata apenas de vômitos.  Mas vai muito além. Quem sofre da doença pode tentar compensar o que comeu com o uso de laxantes, exercícios exagerados, dietas radicais por um curto período, indução do vomito, entre outros. Porém, nada disso adianta. Apenas enfraquece a pessoa, provocando sérias conseqüências. 
A diferença entre anorexia e bulimia é que na anorexia há perda bastante acentuada no peso da paciente devida à pouca ou nula comida ingerida, e por mais que emagreça, ela nunca está satisfeita com o próprio corpo. A bulimia é uma doença em que a paciente quer emagrecer, mas o emagrecimento não é o que chama a atenção e sim as mulheres que adquirem as doenças, pois têm corpos de verdadeiras modelos e uma maneira obsessiva de cuidar deles, sendo que muitas vezes têm hábitos estranhos como ingerir de 5 a 20 mil calorias de uma só vez e depois ir ao banheiro 5,10 ou 15 vezes para vomitar tudo.  
A primeira alteração das anoréxicas aparece na pele e nos pêlos, que também são os primeiros órgãos que sofrem com a privação de alimentos. A pele fica extremamente seca e coberta por lanugo, uma penugem que se parece com barba de milho. Essas moças apresentam também amenorréia, isto é, deixam de menstruar e sofrem uma regressão nas características femininas. Os seios e os grandes lábios praticamente desaparecem.           
Quanto à menstruação, quanto mais tempo ela estiver ausente, maior dificuldade a mulher encontrará para engravidar e caso o consiga, o que é raro, maiores dificuldades encontrará durante o parto. No entanto, a osteoporose pode ser considerada a manifestação mais grave da doença. Fraturas podem ocorrer espontaneamente. A pessoa está andando e cai porque um osso se quebrou sem ter sofrido nenhum traumatismo direto. 
Além disso, alterações intestinais e cardíacas importantes são freqüentes, porque muitas anoréxicas não só deixam de comer adequadamente como passam a usar laxantes e diuréticos. O diurético provoca uma queda de potássio, elemento fundamental para o bom funcionamento do coração. Sua ausência pode causar morte por arritmia ou parada cardíaca. Associado aos laxantes, o diurético aumenta a perda de água do organismo o que pode causar desidratação e insuficiência renal. No Hospital das Clínicas, em São Paulo, há pacientes obrigados a fazer hemodiálise porque perderam um rim por causa da desidratação.
1.3  PRAGA VIRTUAL
A sociedade terá de se preparar para enfrentar um novo inimigo virtual. Um exército de adolescentes está usando a internet para ensinar outros jovens a serem anoréxicos. Tudo para chegar ao que seria a coisa mais importante da vida, de acordo com os autores dos sites: ficar magro. As páginas são assustadoras. Exibem fotos de meninas esqueléticas apontadas como modelos de beleza, e dão, inclusive, dicas para enganar os pais, e formas de se punirem caso comam algo que engorda. Algumas dessas dicas irresponsáveis são: arranje um hobby como dormir, pedalar, fazer academia, passear com o cachorro, para fazer praticar na hora das refeições, limpe o banheiro ou a pia da cozinha para perder a fome, monte um álbum com as fotos dos corpos de mulheres que você gostaria de ter e quando quiser comer alguma coisa calórica olhe para o álbum e lembre-se de que esse esforço vale a pana , lambuze o prato de comida antes de seus pais chegarem para dar impressão de que você comeu. A “Ana” e a “Mia” são apelidos assim chamados pelas internautas para referirem-se da anorexia e da bulimia, respectivamente.
Além da influência que os sites podem exercer sobre pessoas que não têm a doença, os especialistas temem que eles se tornem um braço de apoio às meninas e meninos já doentes. Antes do estouro desses endereços, as vítimas, em geral, eram muito sozinhas, o que de certa forma facilitava a aproximação da família, aumentando a adesão ao tratamento. Com o acesso à internet, os pacientes contam com a ajuda uns dos outros, complicando ainda mais o combate ao problema. 
1.4  TRATAMENTO 
Uma das primeiras dificuldades é a que diz respeito à aderir o paciente ao tratamento, pois a negação da doença é muitas vezes parte integrante do quadro. As pacientes com anorexia nervosa em geral desconfiam dos médicos, os quais elas percebem como inimigos e interessados apenas em realimentá-las, em fazê-las perder a vontade de controlar seus pesos.
O tratamento tem que começar rápido, com muita firmeza, sem deixar absolutamente nenhuma alternativa para o paciente, de modo que fiquei claro para ela que não pode vomitar e que tem que ganhar peso. O mais importante de tudo é normalizar o peso, mesmo que seja contra a vontade da paciente.           
O modelo de tratamento com uma equipe multiprofissional é o melhor aceito atualmente. O ideal é que a equipe de tratamento inclua um clínico, um nutricionista, um psicoterapeuta individual e um psicoterapeuta de grupo familiar. 
No papel do nutricionista, assim como de todos os outros, é fundamental criar um vínculo terapêutico com o paciente, pois a mudança nas atitudes alimentares é uma medida importante do resultado geral nestes pacientes.  Cabe ao nutricionista relacionar aspectos psicológicos e nutricionais dos transtornos alimentares, visando estabelecer padrões nutricionais adequados. 
O psicoterapeuta deve ser uma das pessoas mais confiáveis, pois a paciente deverá contar suas angústias, medos e tudo aquilo que possa relacionar-se com a doença. Porém esse papel é muito difícil, pois em 95% das vezes a paciente acha que está ótima e que o paciente só vai ajudá-la a engordar. Geralmente são receitados antidepressivos porque quase sempre a anorexia é acompanhada de um estado depressivo, porque eles diminuem o caráter Obsessivo-compulsivo dos vômitos e da distorção da auto-imagem e finalmente porque eles agem no Sistema de Neurotransmissores que estão alterados nessa doença. Mas o problema é que o efeito só começa a aparecer após várias semanas e além disso o paciente não aceita ser chamado de doente e ouvir que precisa tomar remédio.           
E o papel da família é tentar ajudar a paciente que não quer ser ajudada, portanto tem um grande peso na cura e deverão estar preparados para uma luta, conjunta com a paciente, que durará por anos. 
A necessidade de controlar o peso e alimentação, os cuidados para que ela tome o remédio certo e para que não tome os laxantes são uma batalha diária.
A família também deverá montar um ambiente agradável, principalmente na cozinha e sala de jantar, para acolher a paciente e para que ela possa se sentir bem num lugar em que antes ela quase nunca freqüentava.

CONCLUSÃO 
Com esse trabalho pude concluir que as pessoas que têm algum distúrbio alimentar, seja ele qual for, imaginam que elas têm controle da doença, que a doença é uma opção, em que podem entrar, sair e controlar a qualquer hora e como querem. Portanto, não assim. Elas acabam sendo escravas da balança, prejudicando corpo delas a própria vida, sem contar que elas perturbam, principalmente, da família. Ela perde a confiança em todas as pessoas e acha que todos estão contra ela.           
A doença não deixa de ser também um distúrbio mental, pois está muito associado com a mente, com o que a anoréxica enxerga, que é totalmente distorcido à realidade. E não há quem consiga fazê-la mudar de idéia até ela mesma se conscientizar de que antes ela precisa mudar a mente dela. A mudança tem de partir de dentro, deve ser uma coisa que ela mesma deve querer, e enquanto está com a doença, o único querer dela está associado à perda de peso.

Anorexia e Bulemia













Este trabalho foi elaborado com o intuito de apontar e explicar os fatores que ocasionam transtornos alimentares, com destaque à anorexia e bulemia, doenças que, infelizmente, vem ganhando destaque porque atingem principalmente as adolescentes e jovens adultas atualmente.
Dividido em tópicos para auxiliar na compreensão e percepção do risco destes transtornos, o texto procura analisar, dentro dos moldes de um artigo científico, como a preocupação estética converteu-se subitamente em uma enfermidade.
Baseando-se em estatísticas, relatos de nutricionistas especializados e revistas que tratam exclusivamente da estética feminina, o grupo deseja inicialmente compreender a supervalorização dos “padrões” de beleza impostos pela sociedade contemporânea. Bem como examinar a evolução cultural e as mudanças na mentalidade dos jovens, para traçar os aspectos básicos do estado físico e mental de mulheres que se privam de uma alimentação regular e saudável ou aquelas que induzem o vômito após uma refeição.
 

Anorexia + caloria = tortura

Em termos clínicos, anorexia nervosa é considerada uma enfermidade, onde o paciente, na maioria dos casos adolescentes e jovens adultas , apresenta o desejo obsessivo de emagrecer. Esse comportamento torna-se ainda mais preocupante quando o índice de massa corpórea (IMC) da anorética está abaixo do nível normal e mesmo assim, a mesma insiste em criar uma auto-imagem totalmente distorcida, acreditando estar com sobrepeso. A partir desta avaliação contraditória que o paciente tem de si, começam as dietas altamente restritivas, recusando-se a comer mesmo com fome, acompanhadas de atividades físicas exaustantes.
O fato de acreditar que magreza absoluta e medidas zero sejam sinônimos de beleza, não o torna verdade. Entretanto, essa é a concepção das pacientes que sofrem com anorexia nervosa, e a mesma é reforçada com os padrões estéticos difundidos pela sociedade contemporânea. Segundo dados do The Renfrew Center Foundation (Filadélfia), centro de reabilitação alimentar, 20% das pessoas anoréticas morrem prematuramente por complicações da doença, como o suicídio ou problemas cardíacos.
Anúncios publicitários em revistas e jornais, propagandas televisionadas e eventos de moda são alguns exemplos de veiculação do nível de perfeição a ser atingido pelo público feminino. O resultado desta idolatria notória é o transtorno alimentar e a frustração por acharem que não conseguem atingir o corpo ideal. Essa concepção é explanada pela psicanalista Kátia Silene Daré:
O ser humano vive numa cultura altamente estimulante para o desenvolvimento de transtornos emocionais, numa sociedade que faz crer a todos que o preço da não conformidade aos valores estéticos vigentes é obrigatoriamente a angústia e infelicidade. Por vezes mesmo quando esses valores são alcançados, por meio de regimes ou cirurgias estéticas, o transtorno alimentar pode se desenvolver devido a uma inconformidade de corpo físico x corpo emocional; onde estados de depressão e angústia também são freqüentes.
Em contrapartida, a opinião do médico psiquiatra Rodrigo Marot é fundamentada em estudos recentes que afirmam que a anorexia nervosa não é ocasionada apenas pela criação de um protótipo de beleza propagado pela mídia. Apesar desta hipótese ser considerada a principal causa para o comportamento de repúdio ao ganho de peso, a mesma é muito limitativa, pois segundo Marot, existem casos onde a anorexia foi diagnostica e não há recursos para supérfluos como a propagação do culto ao belo. Desta maneira, não é apenas uma influência da divulgação do corpo perfeito que desencadeia o distúrbio nutricional, mas um conjunto de acontecimentos pessoais que instabilizam a saúde mental do ser, deixando-o depressivo e afetando, em alguns casos seu apetite.
Muitas vezes eventos negativos da vida da pessoa desencadeiam a anorexia, como perda de emprego, mudança de cidade, etc. Não podemos afirmar que os eventos negativos causem a doença, no máximo só podemos dizer que o precipitam. [...] Até bem pouco tempo acreditava-se que a anorexia acontecia mais nas sociedades industrializadas. Na verdade houve falta de estudos nas sociedades em desenvolvimento. Os primeiros estudos nesse sentido começaram a ser feitos recentemente e constatou-se que a anorexia está presente também nas populações desfavorecidas e isoladas das propagandas do corpo magro.
Surge então o questionamento sobre a real causa do transtorno, entretanto não existe ainda uma resposta rápida e concreta. São necessários anos de pesquisas, acompanhamento médico qualificado e altos investimentos para a realização destes estudos. Também não existe na área médica um tratamento que garanta a cura da anorexia, nem medicamentos específicos que restabeleçam a correta percepção da imagem corporal ou desejo de perder peso. Por enquanto as medicações têm funcionado apenas como paliativos, é o caso dos antidepressivos que culminam no aumento do peso e das psicoterapias realizadas individualmente, bem como através do acompanhamento familiar.
Alguns pesquisadores, inclusive afirmam que a percentagem de pacientes considerados totalmente recuperados foi quase o dobro entre os que receberam tratamento de base familiar . Isso ocorre porque a terapia individual é direcionada apenas em ajudar o adolescente a administrar sua alimentação, focando nos aspectos emocionais e psicológicos da doença. Já a terapia familiar encarrega os pais a mudarem o comportamento de seu filho, criando um cardápio saudável e moderando os exercícios.
 

Anorexia alcoólica

Além da anorexia nervosa, vem ganhando destaque outra espécie desta doença: a anorexia alcoólica. A mesma é também conhecida como drunkorexia, termo originado nos EUA. Em outras palavras trata-se de um transtorno alimentar que restringe a alimentação saudável associado à excessiva ingestão de álcool, para que a mulher consiga atingir o tão desejado corpo esbelto. Juntamente ao distúrbio alimentar, outro fator que resulta a anorexia alcoólica é o aumento da popularização concernente ao consumo de bebidas alcoólicas entre adolescentes.
Vale salientar que o alcoolismo, está associado a problemas psicológicos como depressão, ansiedade, bulimia e anorexia. Com isso, a mulher passa a ingerir certa quantidade de álcool para inicialmente, atenuar suas dificuldades. Com o tempo, seu organismo se habitua e passa a exigir quantidades maiores. Dessa forma, o álcool excessivo inibe o apetite e o conseqüente consumo de nutrientes, originando a anorexia alcoólica. O tratamento desta doença também deve ser realizado com o apoio e o acompanhamento da família, a fim de desenvolver a autoconfiança da jovem e fortalecer sua personalidade.
 

Brincando de ser Barbie   

É de conhecimento geral que a obesidade mórbida infantil vem afetando a saúde da criança com doenças até então relacionadas apenas aos adultos como hipertensão e diabetes. Mas o que ainda não é totalmente divulgado é o fato da anorexia nervosa estar atingindo precocemente as crianças e pré-adolescentes.
Entretanto, ao contrário do que ocorre nas adolescentes, a anorexia infantil não está relacionada apenas aos valores estéticos, apesar de que as crianças são bombardeadas com imagens do corpo perfeito de apresentadoras de programas infantis, cantoras e até mesmo as ilustrações dos desenhos animados. Mas, ligado a isso existe o fator familiar, pois o cuidado dos pais em relação à saúde dos filhos que são um pouco “cheinhos” pode se tornar exagerado e neurótico. Restringir a alimentação da criança, cria nela um pavor à comida, pois ainda não há a capacidade de entendimento sobre calorias. Além disso, a anorexia nervosa infantil traz sérios riscos à saúde da paciente, como o impedimento da altura geneticamente determinada, enfraquecimento dos ossos, diminuição da pressão arterial e do ritmo dos batimentos cardíacos.
É necessário haver consentimento entre os pais sobre a alimentação das crianças, bem como respeitar cada fase do crescimento, pois apesar de absurdo, muitos pais levam suas filhas pré-adolescentes ao endocrinologista por elas “acumularem” muita gordura. 
 

Grupo “pró-ana”

Nos espaços virtuais, vem se propagando idéias a favor da anorexia, defendendo-a como “estilo de vida”, um padrão a ser adotado por todos. As bonequinhas anoréticas, como são mais conhecidas, na realidade são adolescentes com o IMC dentro dos níveis normais, entretanto desejam assiduamente emagrecer para que possam alcançar sua felicidade. Uma delas, que usava o codinome D.M.  apresente a síndrome parcial, ou seja, não apresenta todos os sintomas de uma anorética, mas fica dias sem comer, usa laxantes, ou pratica exercícios físicos exaustantes.
Essas meninas tratam a doença como garantia para o corpo perfeito, inclusive a chamam de “Ana” e criam comunidades em sítios de relacionamento contento textos, música e imagens para incentivar os longos períodos de abstinência alimentar.
A anorexia é a minha vida, minha melhor amiga, ou mesmo minha amante. Trata-se, infalivelmente de que sempre que eu preciso, ela está aqui para ajudar-me. O fato de que ela possa estar lentamente me matando, de certa forma é bom pelos benefícios em curto prazo que ela traz. [...] A mídia cria uma imagem de mulher perfeita e quando resolvemos emagrecer para estar de acordo com o padrão de beleza querem nos punir, dizendo que estamos doentes. Doentes são eles.
É preciso ressaltar que não adianta apenas criticar estas adolescentes, pois o seu comportamento é conseqüência da imposição do modelo estético a ser adotado pelas mulheres. A cultura mundial valoriza o corpo esbelto, enquanto que as adolescentes a favor da anorexia estigmatizam o corpo esquelético e apontam a gordura como uma “falha evolutiva” e sinônimo de infelicidade.
Ninguém aceita a idéia de uma pessoa passar dias sem comer por uma imagem perfeita, nos rotulam de maníacas doentes. Na verdade estamos apenas seguindo nossas vidas em busca dos valores no quais acreditamos. Valores que as próprias pessoas nos passaram: desde cedo aprendemos nessa sociedade que ser obeso é ser nojento.
Contudo não se pode deixar que publicações a favor da anorexia se tornem comuns, é necessário haver um tratamento psiquiátrico e nutricional, visando restabelecer o equilíbrio mental das “pró-ana”, além de procurar o apoio da família, dos amigos e de pessoas que conseguiram se recuperar.
 

Ingerir ou digerir: eis a questão?

A bulimia consiste na prática de induzir o vômito ou usar laxantes de maneira abusiva após uma refeição, como forma de evitar o ganho calórico. Assim como a anorexia, a bulimia é também considerada um transtorno alimentar que atinge um grande contingente de adolescentes que desejam alcançar o corpo perfeito e consequentemente, a felicidade.
O quadro clínico de uma bulímica é mais difícil de ser diagnosticado porque as pacientes geralmente apresentam o peso normal ou usam roupas muito largas para disfarçar a magreza. Entretanto, por problemas psicológicos como a ansiedade e depressão, as pacientes com bulimia comem exageradamente e para que não haja o ganho calórico, eliminam de maneira não natural.
Assim como o grupo “pró-ana”, também vem sendo divulgado o grupo “pró-mia”, que também objetiva aconselhar e incentivar as adolescentes que desejam emagrecer através da bulimia. Do mesmo modo, é necessário iniciar o tratamento psiquiátrico dentro do ambiente familiar, pois a característica marcante em todos esses transtornos é a alienação dos adolescentes quanto as suas reais necessidades físicas e a fácil influência da mídia.
 

Considerações finais

O julgamento ideal para a beleza na atualidade é o corpo esguio, e as adolescentes estão constantemente sacrificando sua saúde física e mental para alcançar o padrão que é constantemente imposto pela mídia. No passado ter curvas arredondadas era análogo ao belo, porém com os avanços na medicina, descobriu-se que o excesso de tecido adiposo desencadeava diversas doenças como hipertensão, diabetes e obesidade. Com o tempo a mídia passou a divulgar os benefícios de um corpo magro, e infelizmente, vêm influenciando de forma negativa as jovens. No entanto não se pode apenas culpar a propagação das imagens de modelos e celebridades magérrimas, pois a sociedade tornou-se vazia ao cultuar apenas a aparência.
Diferentemente do que se imaginava, os casos de transtornos alimentares vêm atingindo cada vez mais, as crianças e pré-adolescentes seja pela pressão familiar ou pelas constantes imagens de corpos bonitos das mulheres que fazem parte do meio infantil, como cantoras e apresentadoras. A atenção deve ser redobrada porque a criança ainda não se desenvolveu por completo e necessita de todos os nutrientes para que possam crescer de forma saudável.
Infelizmente, ainda não existe cura nem medicamentos que cessem os transtornos alimentares, mas o acompanhamento familiar tem grande importância pois auxilia no âmbito nutricional e psicológico. Para que haja então a total recuperação da anorexia ou bulimia, se faz necessário o tratamento psiquiátrico e nutricional, bem como a análise pessoal de cada paciente.

Alcoolismo

 1- INTRODUÇÃO

   O alcoolismo é o conjunto de problemas relacionados ao consumo excessivo e prolongado do álcool; é entendido como o vício de ingestão excessiva e regular de bebidas alcoólicas, e todas as conseqüências decorrentes. O alcoolismo é, portanto, um conjunto de diagnósticos. Dentro do alcoolismo existe a dependência, a abstinência, o abuso (uso excessivo, porém não continuado), intoxicação por álcool (embriaguez). Síndromes amnéstica (perdas restritas de memória), demencial, alucinatória, delirante, de humor. Distúrbios de ansiedade, sexuais, do sono e distúrbios inespecíficos. Por fim o delirium tremens, que pode ser fatal.
Assim o alcoolismo é um termo genérico que indica algum problema, mas medicamente para maior precisão, é necessário apontar qual ou quais distúrbios estão presentes, pois geralmente há mais de um. 

2- ALGUMAS DEFINIÇÕES 
   O fenômeno da Dependência (Addiction)  é o comportamento de repetição que obedece a dois mecanismos básicos não patológicos: o reforço positivo e o reforço negativo. O reforço positivo refere-se ao comportamento de busca do prazer: quando algo é agradável a pessoa busca os mesmos estímulos para obter a mesma satisfação. O reforço negativo refere-se ao comportamento de evitação de dor ou desprazer. Quando algo é desagradável a pessoa procura os mesmos meios para evitar a dor ou desprazer, causados numa dada circunstância. A fixação de uma pessoa no comportamento de busca do álcool, obedece a esses dois mecanismos acima apresentados. No começo a busca é pelo prazer que a bebida proporciona.

   Depois de um período, quando a pessoa não alcança mais o prazer anteriormente obtido, não consegue mais parar porque sempre que isso é tentado surgem os sintomas desagradáveis da abstinência, e para evitá-los a pessoa mantém o uso do álcool. Os reforços positivo e negativo são mecanismos ou recursos normais que permitem às pessoas se adaptarem ao seu ambiente.

    As medicações hoje em uso atuam sobre essas fases: a naltrexona inibe o prazer dado pelo álcool, inibindo o reforço positivo; o acamprosato diminui o mal estar causado pela abstinência, inibindo o reforço negativo. Provavelmente, dentro de pouco tempo, teremos estudos avaliando o benefício trazido pela combinação dessas duas medicações para os dependentes de álcool que não obtiveram resultados satisfatórios com cada uma isoladamente. 

3- TOLERÂNCIA E DEPENDÊNCIA

   A tolerância e a dependência ao álcool são dois eventos distintos e indissociáveis. A tolerância é a necessidade de doses maiores de álcool para a manutenção do efeito de embriaguez obtido nas primeiras doses. Se no começo uma dose de uísque era suficiente para uma leve sensação de tranqüilidade, depois de duas semanas (por exemplo) são necessárias duas doses para o mesmo efeito. Nessa situação se diz que o indivíduo está desenvolvendo tolerância ao álcool. Normalmente, à medida que se eleva a dose da bebida alcoólica para se contornar a tolerância, ela volta em doses cada vez mais altas. Aos poucos, cinco doses de uísque podem se tornar inócuas para o indivíduo que antes se embriagava com uma dose. Na prática não se observa uma total tolerância, mas de forma parcial. Um indivíduo que antes se embriagava com uma dose de uísque e passa a ter uma leve embriaguez com três doses está tolerante apesar de ter algum grau de embriaguez. O alcoólatra não pode dizer que não está tolerante ao álcool por apresentar sistematicamente um certo grau de embriaguez. O critério não é a ausência ou presença de embriaguez, mas a perda relativa do efeito da bebida. A tolerância ocorre antes da dependência. Os primeiros indícios de tolerância não significam, necessariamente, dependência, mas é o sinal claro de que a dependência não está longe. A dependência é simultânea à tolerância. A dependência será tanto mais intensa quanto mais intenso for o grau de tolerância ao álcool. Dizemos que a pessoa tornou-se dependente do álcool quando ela não tem mais forças por si própria de interromper ou diminuir o uso do álcool.

   O alcoólatra de "primeira viagem" sempre tem a impressão de que pode parar quando quiser e afirma: "quando eu quiser, eu paro". Essa frase geralmente encobre o alcoolismo incipiente e resistente; resistente porque o paciente nega qualquer problema relacionado ao álcool, mesmo que os outros não acreditem, ele próprio acredita na ilusão que criou. A negação do próprio alcoolismo, quando ele não é evidente ou está começando, é uma forma de defesa da auto-imagem (aquilo que a pessoa pensa de si mesma). O alcoolismo, como qualquer diagnóstico psiquiátrico, é estigmatizante. Fazer com que uma pessoa reconheça o próprio estado de dependência alcoólica, é exigir dela uma forte quebra da auto-imagem e conseqüentemente da auto-estima. Com a auto-estima enfraquecida a pessoa já não tem a mesma disposição para viver e, portanto, lutar contra a própria doença. É uma situação paradoxal para a qual não se obteve uma solução satisfatória. Dependerá da arte de conduzir cada caso particularmente, dependerá da habilidade de cada psiquiatra. 

4- ASPECTOS GERAIS DO ALCOOLISMO

   A identificação precoce do alcoolismo geralmente é prejudicada pela negação dos pacientes quanto a sua condição de alcoólatras. Além disso, nos estágios iniciais é mais difícil fazer o diagnóstico, pois os limites entre o uso "social" e a dependência nem sempre são claros. Quando o diagnóstico é evidente e o paciente concorda em se tratar é porque já se passou muito tempo, e diversos prejuízos foram sofridos. É mais difícil de se reverter o processo. Como a maioria dos diagnósticos mentais, o alcoolismo possui um forte estigma social, e os usuários tendem a evitar esse estigma. Esta defesa natural para a preservação da auto-estima acaba trazendo atrasos na intervenção terapêutica. Para se iniciar um tratamento para o alcoolismo é necessário que o paciente preserve em níveis elevados sua auto-estima sem, contudo, negar sua condição de alcoólatra, fato muito difícil de se conseguir na prática. O profissional deve estar atento a qualquer modificação do comportamento dos pacientes no seguinte sentido: falta de diálogo com o cônjuge, freqüentes explosões temperamentais com manifestação de raiva, atitudes hostis, perda do interesse na relação conjugal. O Álcool pode ser procurado tanto para ficar sexualmente desinibido como para evitar a vida sexual. No trabalho os colegas podem notar um comportamento mais irritável do que o habitual, atrasos e mesmo faltas. Acidentes de carro passam a acontecer. Quando essas situações acontecem é sinal de que o indivíduo já perdeu o controle da bebida: pode estar travando uma luta solitária para diminuir o consumo do álcool, mas geralmente as iniciativas pessoais resultam em fracassos. As manifestações corporais costumam começar por vômitos pela manhã, dores abdominais, diarréia, gastrites, aumento do tamanho do fígado. Pequenos acidentes que provocam contusões, e outros tipos de ferimentos se tornam mais freqüentes, bem como esquecimentos mais intensos do que os lapsos que ocorrem naturalmente com qualquer um, envolvendo obrigações e deveres sociais e trabalhistas. A susceptibilidade a infecções aumenta e dependendo da predisposição de cada um, podem surgir crises convulsivas. Nos casos de dúvidas quanto ao diagnóstico, deve-se sempre avaliar incidências familiares de alcoolismo porque se sabe que a carga genética predispõe ao alcoolismo. É muito mais comum do que se imagina a coexistência de alcoolismo com outros problemas psiquiátricos prévios ou mesmo precipitante. Os transtornos de ansiedade, depressão e insônia podem levar ao alcoolismo. Tratando-se a base do problema muitas vezes se resolve o alcoolismo. Já os transtornos de personalidade tornam o tratamento mais difícil e prejudicam a obtenção de sucesso. 

5- TRATAMENTO DO ALCOOLISMO

   O alcoolismo, essencialmente, é o desejo incontrolável de consumir bebidas alcoólicas numa quantidade prejudicial ao bebedor. O núcleo da doença é o desejo pelo álcool; há tempos isto é aceito, mas nunca se obteve uma substância psicoativa que inibisse tal desejo. Como prova de que inúmeros fracassos não desanimaram os pesquisadores, temos hoje já comprovadas, ou em fase avançada de testes, três substâncias eficazes na supressão do desejo pelo álcool, três remédios que atingem a essência do problema, que cortam o mal pela raiz. Estamos falando naltrexona, do acamprosato e da ondansetrona. O tratamento do alcoolismo não deve ser confundido com o tratamento da abstinência alcoólica. Como o organismo incorpora literalmente o álcool ao seu metabolismo, a interrupção da ingestão de álcool faz com que o corpo se ressinta: a isto chamamos abstinência que, dependendo, do tempo e da quantidade de álcool consumidos pode causar sérios problemas e até a morte nos casos não tratados. As medicações acima citadas não têm finalidade de atuar nessa fase. A abstinência já tem suas alternativas de tratamento bem estabelecidas e relativamente satisfatórias. O Dissulfiram é uma substância que força o paciente a não beber sob a pena de intenso mal estar: se isso for feito, não suprime o desejo e deixa o paciente num conflito psicológico amargo. Muitos alcoólatras morreram por não conseguirem conter o desejo pelo álcool enquanto estavam sob efeito do Dissulfiram. Mesmo sabendo o que poderia acontecer, não conseguiram evitar a combinação do álcool com o Dissulfiram, não conseguiram sequer esperar a eliminação do Dissulfiram. Fatos como esses servem para que os clínicos e os não-alcoólatras saibam o quanto é forte a inclinação para o álcool sofrida pelos alcoólatras, mais forte que a própria ameaça de morte. Serve também para medir o grau de benefício trazido pelas medicações que suprimem o desejo pelo álcool, atualmente disponíveis. Podemos fazer uma analogia para entender essa evolução. Com o Dissulfiram o paciente tem que fazer um esforço semelhante ao motorista que tenta segurar um veículo ladeira abaixo, pondo-se à frente deste, tentando impedir que o automóvel deslanche, atropelando o próprio motorista. Com as novas medicações o motorista está dentro do carro apertando o pedal do freio até que o carro chegue no fim da ladeira. Em ambos os casos, é possível chegar ao fim da ladeira (controle do alcoolismo). Numa o esforço é enorme causando grande percentagem de fracassos; noutro o esforço é pequeno, permitindo grande adesão ao tratamento. 

6- PROBLEMAS CLÍNICOS


   Diversos são os problemas causados pela bebida alcoólica pesada e prolongada. Fugiria ao nosso objetivo entrar em detalhes a esse respeito, por isso abordaremos o tema superficialmente.

   Amnésias nos períodos de embriaguez acontecem em 30 a 40% das pessoas no fim da adolescência e início da terceira década de vida: provavelmente o álcool inibe algum dos sistemas de memória impedindo que a pessoa se recorde de fatos ocorridos durante o período de embriaguez. Induz a sonolência, mas o sono sob efeito do álcool não é natural, tendo sua estrutura registrada no eletroencefalograma alterado. Entre 5 e 15% dos alcoólatras apresentam neuropatia periférica. Este problema consiste num permanente estado de hipersensibilidade, dormência, formigamento nas mãos, pés ou ambos. Nas síndromes alcoólicas pode-se encontrar quase todas as patologias psiquiátricas: estados de euforia patológica, depressões, estados de ansiedade na abstinência, delírios e alucinações, perda de memória e comportamento desajustado.

   Grande quantidade de álcool ingerida de uma vez pode levar a inflamação no esôfago e estômago o que pode levar a sangramentos além de enjôo, vômitos e perda de peso. Esses problemas costumam ser reversíveis, mas as varizes decorrentes de cirrose hepática além de irreversíveis, são potencialmente fatais devido ao sangramento de grande volume que pode acarretar. Pancreatites agudas e crônicas são comuns nos alcoólatras constituindo-se uma emergência à parte. A cirrose hepática é um dos problemas mais falados dos alcoólatras; é um problema irreversível e incompatível com a vida, levando o alcoólatra lentamente à morte.

   Em relação ao Câncer os alcoólatras estão 10 vezes mais sujeitos a qualquer forma de câncer que a população em geral.

   Doses elevadas por muito tempo provocam lesões no coração provocando arritmias e outros problemas como trombos e derrames conseqüentes. É relativamente comum a ocorrência de um acidente vascular cerebral após a ingestão de grande quantidade de bebida.

   O metabolismo do álcool afeta o balanço dos hormônios reprodutivos no homem e na mulher. No homem o álcool contribui para lesões testiculares o que prejudica a produção de testosterona e a síntese de esperma. Já com cinco dias de uso contínuo de 220 gramas de álcool os efeitos acima mencionados começam a se manifestar e continua a se aprofundar com a permanência do álcool. Essa deficiência contribui para a feminilização dos homens, com o surgimento, por exemplo, de ginecomastia (presença de mamas no homem).

   Não há evidências de que o alcoolismo afete diretamente os níveis dos hormônios tireoideanos. Há pacientes alcoólatras que apresentam alterações tanto para mais como para menos nos níveis desses hormônios; presume-se que quando isso ocorre seja de forma indireta por afetar outros sistemas do corpo.

   Alterações são observadas em indivíduos que abusam de álcool, mas essas alterações não provocam problemas detectáveis como inibição do crescimento ou baixa estatura, pelo menos até o momento.

   O Hormônio Antidiurético inibe a perda de água pelos rins, o álcool inibe esse hormônio: como resultado a pessoa perde mais água que o habitual, urina mais, o que pode levar a desidratação. 

7- RECAÍDA

   A taxa de recaída (voltar a beber depois de ter se tornado dependente e parado com o uso de álcool) é muito alta: aproximadamente 90% dos alcoólatras voltam a beber nos 4 anos seguintes a interrupção, quando nenhum tratamento é feito. A semelhança com outras formas de dependência como a nicotina, tranqüilizantes, estimulantes, etc, levam a crer que um há um mecanismo psicológico (cognitivo) em comum. O dependente que consiga manter-se longe do primeiro gole terá mais chances de contornar a recaída. O aspecto central da recaída é o chamado "craving", palavra sem tradução para o português que significa uma intensa vontade de voltar a consumir uma droga pelo prazer que ela causa. O craving é a dependência psicológica propriamente dita. 

8- AS MULHERES SÃO MAIS VULNERÁVEIS AO ÁLCOOL QUE OS HOMENS?

   Aparentemente as mulheres são mais vulneráveis sim. Elas atingem concentrações sanguíneas de álcool mais altas com as mesmas doses quando comparadas aos homens. Parece também que sob a mesma carga de álcool os órgãos das mulheres são mais prejudicados do que o dos homens. A idade onde se encontra a maior incidência de alcoolismo feminino está entre 26 e 34 anos, principalmente entre mulheres separadas. Se a separação foi causa ou efeito do alcoolismo isto ainda não está claro. As conseqüências do alcoolismo sobre os órgãos são diferentes nas mulheres: elas estão mais sujeitas a cirrose hepática do que o homem. Alguns estudos mostram que o consumo moderado de álcool diário aumenta as chances de câncer de mama. Um drink por dia não afeta a incidência desse câncer. 

9- FILHOS DE ALCOÓLATRAS


   Milhões de crianças e adolescentes convivem com algum parente alcoólatra no Brasil. As estatísticas mostram que eles estarão mais sujeitos a problemas emocionais e psiquiátricos do que a população desta faixa etária não exposta ao problema, o que de forma alguma significa que todos eles serão afetados. Na verdade 59% não desenvolvem nenhum problema. O primeiro problema que podemos citar é a baixa auto-estima e auto-imagem com conseqüentes repercussões negativas sobre o rendimento escolar e demais áreas do funcionamento mental, inclusive em testes de QI. Esses adolescentes e crianças tendem quando examinados a subestimarem suas próprias capacidades e qualidades. Outros problemas comuns em filhos e parentes de alcoólatras são persistência em mentiras, roubo, conflitos e brigas com colegas, vadiagem e problemas com o colégio. 

10-O ALCOOLISMO É GENÉTICO?

   Esta pergunta bastante antiga vem sendo mais bem estudada nas últimas décadas através de estudos com gêmeos, e será mais aprofundada com o projeto genoma. A influência familiar do alcoolismo é um fato já conhecido e aceito. O que se pergunta é se o alcoolismo ocorre por influência do convívio ou por influência genética. Para responder a essa pergunta a melhor maneira é a verificação prática da influência, o que pode ser feito estudando os filhos dos alcoólatras. Estudos como esses podem investigar os gêmeos monozigóticos (idênticos) e os dizigóticos. Constatou-se que quando um dos gêmeos idênticos se torna alcoólatra o irmão se torna mais freqüentemente alcoólatra do que os irmãos gêmeos não idênticos. Essa constatação mostra a influência genética real, mas não explica porque, mesmo tendo os "gens do alcoolismo," uma pessoa não se torna alcoólatra. Os estudos familiares mostraram que a participação genética é inegável, mas apenas parcial, os demais fatores que levam ao desenvolvimento do alcoolismo não estão suficientemente claros. 

11- PROBLEMAS PSIQUIÁTRICOS CAUSADOS PELO ALCOOLISMO 

11.1- ABUSO DE ÁLCOOL


A pessoa que abusa de álcool não é necessariamente alcoólatra, ou seja, dependente e faz uso continuado. O critério de abuso existe para caracterizar as pessoas que eventualmente, mas recorrentemente têm problemas por causa dos exagerados consumos de álcool em curtos períodos de tempo. Critérios: para se fazer esse diagnóstico é preciso que o paciente esteja tendo problemas com álcool durante pelo menos 12 meses e ter pelo menos uma das seguintes situações: a) prejuízos significativos no trabalho, escola ou família como faltas ou negligências nos cuidados com os filhos. b) exposição a situações potencialmente perigosas como dirigir ou manipular máquinas perigosas embriagado. c) problemas legais como desacato a autoridades ou superiores. d) persistência no uso de álcool apesar do apelo das pessoas próximas em que se interrompa o uso.

11.2- DEPENDÊNCIA AO ÁLCOOL


Para se fazer o diagnóstico de dependência alcoólica é necessário que o usuário venha tendo problemas decorrentes do uso de álcool durante 12 meses seguidos e preencher pelo menos 3 dos seguintes critérios:

a) apresentar tolerância ao álcool -- marcante aumento da quantidade ingerida para produção do mesmo efeito obtido no início ou marcante diminuição dos sintomas de embriaguez ou outros resultantes do consumo de álcool apesar da continua ingestão de álcool.

b) sinais de abstinência -- após a interrupção do consumo de álcool a pessoa passa a apresentar os seguintes sinais: sudorese excessiva, aceleração do pulso (acima de 100), tremores nas mãos, insônia, náuseas e vômitos, agitação psicomotora, ansiedade, convulsões, alucinações táteis. A reversão desses sinais com a reintrodução do álcool comprova a abstinência. Apesar do álcool "tratar" a abstinência o tratamento de fato é feito com diazepam ou clordiazepóxido dentre outras medicações.

c) o dependente de álcool geralmente bebe mais do que planejava beber.

d) persistente desejo de voltar a beber ou incapacidade de interromper o uso.

e) emprego de muito tempo para obtenção de bebida ou recuperando-se do efeito.

f) persistência na bebida apesar dos problemas e prejuízos gerados como perda do emprego e das relações familiares.

11.3- ABSTINÊNCIA ALCOÓLICA


A síndrome de abstinência constitui-se no conjunto de sinais e sintomas observado nas pessoas que interrompem o uso de álcool após longo e intenso uso. As formas mais leves de abstinência se apresentam com tremores, aumento da sudorese, aceleração do pulso, insônia, náuseas e vômitos, ansiedade depois de 6 a 48 horas desde a última bebida. A síndrome de abstinência leve não precisa necessariamente surgir com todos esses sintomas, na maioria das vezes, inclusive, limita-se aos tremores, insônia e irritabilidade. A síndrome de abstinência torna-se mais perigosa com o surgimento do delirium tremens. Nesse estado o paciente apresenta confusão mental, alucinações, convulsões. Geralmente começa dentro de 48 a 96 horas a partir da ultima dose de bebida. Dada a potencial gravidade dos casos é recomendável tratar preventivamente todos os pacientes dependentes de álcool para se evitar que tais síndromes surjam. Para se fazer o diagnóstico de abstinência, é necessário que o paciente tenha pelo menos diminuído o volume de ingestão alcoólica, ou seja, mesmo não interrompendo completamente é possível surgir a abstinência. Alguns pesquisadores afirmam que as abstinências tornam-se mais graves na medida em que se repetem, ou seja, um dependente que esteja passando pela quinta ou sexta abstinência estará sofrendo os sintomas mencionados com mais intensidade, até que surja um quadro convulsivo ou de delirium tremens. As primeiras abstinências são menos intensas e perigosas.

   O Delirium Tremens é uma forma mais intensa e complicada da abstinência. Delirium é um diagnóstico inespecífico em psiquiatria que designa estado de confusão mental: a pessoa não sabe onde está, em que dia está, não consegue prestar atenção em nada, tem um comportamento desorganizado, sua fala é desorganizada ou ininteligível, a noite pode ficar mais agitado do que de dia. A abstinência e várias outras condições médicas não relacionadas ao alcoolismo podem causar esse problema. Como dentro do estado de delirium da abstinência alcoólica são comuns os tremores intensos ou mesmo convulsão, o nome ficou como Delirium Tremens. Um traço comum no delírio tremens, mas nem sempre presente são as alucinações táteis e visuais em que o paciente "vê" insetos ou animais asquerosos próximos ou pelo seu corpo. Esse tipo de alucinação pode levar o paciente a um estado de agitação violenta para tentar livrar-se dos animais que o atacam. Pode ocorrer também uma forma de alucinação induzida, por exemplo, o entrevistador pergunta ao paciente se está vendo as formigas andando em cima da mesa sem que nada exista e o paciente passa a ver os insetos sugeridos. O Delirim Tremens é uma condição potencialmente fatal, principalmente nos dias quentes e nos pacientes debilitados. A fatalidade quando ocorre é devida ao desequilíbrio hidro-eletrolítico do corpo.

11.4- INTOXICAÇÃO PELO ÁLCOOL

   O estado de intoxicação é simplesmente a conhecida embriaguez, que normalmente é obtida voluntariamente. No estado de intoxicação a pessoa tem alteração da fala (fala arrastada), descoordenação motora, instabilidade no andar, nistagmo (ficar com olhos oscilando no plano horizontal como se estivesse lendo muito rápido), prejuízos na memória e na atenção, estupor ou coma nos casos mais extremos. Normalmente junto a essas alterações neurológicas apresenta-se um comportamento inadequado ou impróprio da pessoa que está intoxicada. Uma pessoa muito embriagada geralmente encontra-se nessa situação porque quis, uma leve intoxicação em alguém que não está habituado é aceitável por inexperiência mas não no caso de alguém que conhece seus limites.

   Os alcoólatras "pesados" em parte (10%) desenvolvem algum problema grave de memória. Há dois desses tipos: a primeira é a chamada Síndrome Wernicke-Korsakoff (SWK) e a outra a demência alcoólica. A SWK é caracterizada por descoordenação motora, movimentos oculares rítmicos como se estivesse lendo (nistagmo) e paralisia de certos músculos oculares, provocando algo parecido ao estrabismo para quem antes não tinha nada. Além desses sinais neurológicos o paciente pode estar em confusão mental, ou se com a consciência clara, pode apresentar prejuízos evidentes na memória recente (não consegue gravar o que o examinador falou 5 minutos antes) e muitas vezes para preencher as lacunas da memória o paciente inventa histórias, a isto chamamos fabulações. Este quadro deve ser considerado uma emergência, pois requer imediata reposição da vitamina B1(tiamina) para evitar um agravamento do quadro. Os sintomas neurológicos acima citados são rapidamente revertidos com a reposição da tiamina, mas o déficit da memória pode se tornar permanente. Quando isso acontece o paciente apesar de ter a mente clara e várias outras funções mentais preservadas, torna-se uma pessoa incapaz de manter suas funções sociais e pessoais. Muitos autores referem-se a SWK como uma forma de demência, o que não está errado, mas a demência é um quadro mais abrangente, por isso preferimos o modelo americano que diferencia a SWK da demência alcoólica.

   A Síndrome Demencial Alcoólica é semelhante a demência propriamente dita como a de Alzheimer. No uso pesado e prolongado do álcool, mesmo sem a síndrome de Wernick-Korsakoff, o álcool pode provocar lesões difusas no cérebro prejudicando além da memória a capacidade de julgamento, de abstração de conceitos; a personalidade pode se alterar, o comportamento como um todo fica prejudicado. A pessoa torna-se incapaz de sustentar-se. 

12- SÍNDROME DE ABSTINÊNCIA FETAL

A Síndrome de Abstinência Fetal descrita pela primeira vez em 1973 era considerada inicialmente uma conseqüência da desnutrição da mãe, posteriormente viu-se que os bebês das mães alcoólatras apresentavam problemas distintos dos bebês das mães desnutridas, além de outros problemas que esses não tinham. Constatou-se assim que os recém-natos das mães alcoólatras apresentam um problema específico, sendo então denominada Síndrome de Abstinência Fetal (SAF). As características da SAF são: baixo peso ao nascer, atraso no crescimento e no desenvolvimento, anormalidades neurológicas, prejuízos intelectuais, más formações do esqueleto e sistema nervoso, comportamento perturbado, modificações na pálpebra deixando os olhos mais abertos que o comum, lábio superior fino e alongado. O retardo mental e a hiperatividade são os problemas mais significativos da SAF. Mesmo não havendo retardo é comum ainda o prejuízo no aprendizado, na atenção e na memória; e também descoordenação motora, impulsividade, problemas para falar e ouvir. O déficit de aprendizado pode persistir até a idade adulta. 

13- O ESTRESSE PODE PROVOCAR ALCOOLISMO?


   O estresse não determina o alcoolismo, mas estudos mostraram que pessoas submetidas a situações estressantes para as quais não encontra alternativa, tornam-se mais freqüentemente alcoólatras. O álcool possui efeito relaxante e tranqüilizante semelhante ao dos ansiolíticos. O problema é que o álcool tem muito mais efeitos colaterais que os ansiolíticos. Numa situação dessas o uso de ansiolíticos poderia prevenir o surgimento de alcoolismo. Na verdade o que se encontra é a vontade de abolir as preocupações com a embriaguez e isso os ansiolíticos não proporcionam, ou o fazem em doses que levariam ao sono. O homem quando submetido a estresse tende a procurar não a tranqüilidade, mas o prazer. Daí que a vida sexualmente promíscua muitas vezes é acompanhada de abuso de álcool e drogas. O fato de uma pessoa não encontrar uma solução para seu estresse não significa que a solução não exista. A Logoterapia, por exemplo, ajuda o paciente a encontrar um significado na sua angústia. Não suprime a fonte da angústia, mas a torna mais suportável. Quando uma dor adquire um sentido, torna-se possível contorná-la, continuar a vida com um sorriso, desde que ela não seja incapacitante. Sob esse aspecto a logoterapia pode ajudar a vencer o alcoolismo nas suas etapas iniciais, quando ainda não surgiu dependência química. Uma situação de estresse real que passamos atualmente é o desemprego. Este problema social é de difícil resolução e geralmente faz com que as pessoas se ajustem às custas de elevação da tensão emocional prolongada, que é a mesma coisa de estresse. 

14- ALCOOLISMO E DESNUTRIÇÃO

   As principais funções do processo alimentar são a manutenção da estrutura corporal e das necessidades energéticas diárias. Uma alimentação equilibrada proporciona o que precisamos. O álcool é uma substância bastante energética, em épocas passadas, chegou a ser usado em pacientes após cirurgias para uma reposição mais rápida da energia perdida na cirurgia. Apesar de altamente calórico o álcool não é armazenável. Não fossem os efeitos prejudiciais ao longo do tempo, o álcool seria um excelente meio de perder peso. Para que se possa entender como o álcool fornece energia e ao mesmo tempo não é armazenável é necessário entender seu mecanismo metabólico o que não será abordado aqui. Pelo fato do usuário de álcool possuir suas necessidades energéticas supridas ele não sente muita ou nenhuma fome, assim não há vontade de comer. A diminuição da oferta das substâncias (proteínas, açucares, gorduras, vitaminas e minerais) usadas na constante reconstrução dos tecidos, não interrompe o processo de destruição natural das células que estão sendo substituídas constantemente. Assim o corpo do alcoólatra começa a se consumir. Esse processo leva a desnutrição.

15- TESTES NEUROPSICOLÓGICOS


Os pacientes alcoólatras confirmados ao se submeterem a testes de inteligência apresentam 45 a 70% normais. Contudo, esses mesmos ao fazerem testes mais específicos em determinadas áreas do funcionamento mental, como a capacidade de resolver problemas, pensamento abstrato, desempenho psicomotor, memória e capacidade de lidar com novidades, costumam apresentar problemas. Os testes normalmente representam atividades desempenhadas diariamente e não situações especiais ou raras. Este resultado mostra que os testes superficiais deixam passar comprometimentos significativos. Os testes neuropsicológicos são mais adequados e precisos na medição de capacidades mentais comprometidas pelo álcool. Tem sido observado também que no cérebro dos alcoólatras ocorrem modificações na estrutura apresentada nos exames de tomografia ou ressonância, além de comprometimento na vascularização e nos padrões elétricos. Como esses achados são recentes, não houve tempo para se estudar a relação entre essas alterações laboratoriais e os prejuízos psicológicos que eles representam.   

16- EFEITOS DO ÁLCOOL SOBRE O CÉREBRO


   Os resultados de exames pos-mortem (necropsia) mostram que pacientes com história de consumo prolongado e excessivo de álcool têm o cérebro menor, mais leve e encolhido do que o cérebro de pessoas sem história de alcoolismo. Esses achados continuam sendo confirmados pelos exames de imagem como a tomografia, a ressonância magnética e a tomografia por emissão de fótons. O dano físico direto do álcool sobre o cérebro é um fato já inquestionavelmente confirmado. A parte do cérebro mais afetada costumam ser o córtex pré-frontal, a região responsável pelas funções intelectuais superiores como o raciocínio, capacidade de abstração de conceitos e lógica. Os mesmos estudos que investigam as imagens do cérebro identificam uma correspondência linear entre a quantidade de álcool consumida ao longo do tempo e a extensão do dano cortical. Quanto mais álcool mais dano. Depois do córtex, regiões profundas seguem na lista de mais acometidas pelo álcool: as áreas envolvidas com a memória e o cerebelo que é a parte responsável pela coordenação motora. 

17- O PROCESSO METABÓLICO DO ÁLCOOL

Quando o álcool é consumido passa pelo estômago e começa a ser absorvido no intestino caindo na corrente sanguínea. Ao passar pelo fígado começa a ser metabolizado, ou seja, a ser transformado em substâncias diferentes do álcool e que não possuem os seus efeitos. A primeira substancia formada pelo álcool chama-se acetaldeído, que é depois convertido em acetado por outras enzimas, essas substâncias assim com o álcool excedente são eliminados pelos rins; as que eventualmente voltam ao fígado acabam sendo transformadas em água e gás carbônico expelido pelos pulmões. A passagem do intestino para o sangue se dá de acordo com a velocidade com que o álcool é ingerido, já o processo de degradação do álcool pelo fígado obedece a um ritmo fixo podendo ser ultrapassado pela quantidade consumida. Quando isso acontece temos a intoxicação pelo álcool, o estado de embriaguez. Isto significa que há muito álcool circulando e agindo sobre o sistema nervoso além dos outros órgãos. Como a quantidade de enzimas é regulável, um indivíduo com uso contínuo de álcool acima das necessidades estará produzindo mais enzimas metabolizadoras do álcool, tornando-se assim mais "resistente" ao álcool. A presença de alimentos no intestino lentifica a absorção do álcool. Quanto mais gordura houver no intestino mais lenta se tornará a absorção do álcool. Apesar do álcool ser altamente calórico (um grama de álcool tem 7,1 calorias; o açúcar tem 4,5), ele não fornece material estocável; assim a energia oferecida pelo álcool é utilizada enquanto ele circula ou é perdida. A famosa "barriga de chopp" é dada mais pelos aperitivos que acompanham a bebida. 

18- CONSEQUÊNCIAS CORPORAIS DO ALCOOLISMO
À medida que o alcoolismo avança, as repercussões sobre o corpo se agravam. Os órgãos mais atingidos são: o cérebro, trato digestivo, coração, músculos, sangue, glândulas hormonais. Como o álcool dissolve o mucus do trato digestivo, provoca irritação na camada externa de revestimento que pode acabar provocando sangramentos. A maioria dos casos de pancreatite aguda (75%) são provocados por alcoolismo. As afecções sobre o fígado podem ir de uma simples degeneração gordurosa à cirrose que é um processo irreversível e incompatível com a vida. O desenvolvimento de patologias cardíacas pode levar 10 anos por abusos de álcool e ao contrário da cirrose pode ser revertida com a interrupção do vício. Os alcoólatras tornam-se mais susceptíveis a infecções porque suas células de defesas são em menor número. O álcool interfere diretamente com a função sexual masculina, com infertilidade por atrofia das células produtoras de testosterona, e diminuição dos hormônios masculinos. O predomínio dos hormônios femininos nos alcoólatras do sexo masculino leva ao surgimento de características físicas femininas como o aumento da mama (ginecomastia). O álcool pode afetar o desejo sexual e levar a impotência por danos causados nos nervos ligados a ereção. Nas mulheres o álcool pode afetar a produção hormonal feminina, levando diminuição da menstruação, infertilidade e afetando as características sexuais femininas.
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